NOTA DE INTENÇÕES
SEM SAÍDA nasceu de um encontro fortuito que me marcou profundamente. Numa caminhada após o jantar, cruzei-me com uma estafeta da Uber Eats a entrar num carro onde duas crianças a esperavam no banco de trás. Este momento apanhou-me desprevenida, pois, em todas as ocasiões em que abri a porta para receber uma encomenda, nunca me questionei sobre a pessoa à minha frente. Quantas entregas já teria feito? Estaria cansada, com fome, com filhos à espera?
Este episódio despertou-me para uma realidade sobre a qual nunca tinha refletido. Comecei a investigar as condições de trabalho dos estafetas e o funcionamento das plataformas digitais de entrega. Foi assim que conheci Marcel Borges, estafeta, advogado e porta-voz do movimento “Estafetas Em Luta”. Marcel partilhou comigo histórias sobre as injustiças que os estafetas enfrentam diariamente, descrevendo o que chama de “ditadura algorítmica” imposta pelas plataformas.
Neste filme, a aplicação assume o papel de antagonista que infantiliza, pressiona e desumaniza através da sua presença constante e da linguagem manipuladora que utiliza. As suas intervenções, muitas das quais baseadas em relatos reais, revelam-se profundamente desadequadas e desfasadas da realidade, criando uma sensação distópica. Por isso, para relembrar o espectador da atualidade desta problemática, optei por uma abordagem crua e realista, inspirada na estética do realismo social. Entre as minhas referências estão “L’Enfant” de Jean-Pierre e Luc Dardenne, “Wasp” de Andrea Arnold, “Florida Project” de Sean Baker e “Sorry We Missed You” de Ken Loach. Tal como nesses filmes, povoados por personagens marginalizadas, SEM SAÍDA convida o espectador a prestar atenção à vida invisível de Susana, uma estafeta e mãe solteira que é forçada a levar os filhos consigo enquanto faz as entregas.
À semelhança de “L’Enfant”, este filme coloca a maternidade em condições de precariedade no centro da narrativa, acompanhando de perto o esforça de Susana em conciliar as exigências incessantes da economia das plataformas digitais com o cuidado dos filhos. A câmara segue o corpo em movimento e priviligia a experiência física da protagonista, aproximando o espectador da sua realidade sem cair em moralismos.
No caso de “Sorry We Missed You”, SEM SAÍDA partilha uma perspetiva crítica sobre a precariedade laboral e o seu impacto na vida familiar. O filme explora também temas como a vigilância, a opressão e a ilusão de escolha. A prometida liberdade oferecida pelas plataformas digitais é ofuscada por uma opressão invisível, alheia às complexidades da condição humana. A opressão exercida nas personagens é sublinhada pelo uso de um aspect ratio de 4:3. Este formato quadrado mantém as personagens confinadas e centradas no enquadramento.
O filme inspira-se também em “The Florida Project”, de Sean Baker, sobretudo na forma sensível como retrata a infância em contextos vulneráveis e em espaços urbanos marginalizados. A cidade emerge como um espaço narrativo repleto de símbolos de opressão e desigualdade, como grades, muros e blocos de habitação social que dominam a paisagem e acentuam o sentimento de confinamento vivido por Susana e os seus filhos. Embora a família passe grande parte do tempo fora de casa, está essencialmente confinada ao espaço do carro. A sua perceção do mundo é mediada pelas janelas, que funcionam como barreiras. Nas raras paragens, o contraste entre os planos apertados, que isolam as personagens, e as paisagens urbanas abertas, onde a liberdade se revela ilusória, reforça a sensação de confinamento.
A invasão de privacidade a que os estafetas estão sujeitos através da monitorização GPS constante é explorada através de close-ups, que criam uma intimidade quase desconfortável com as personagens, provocando uma reação física e emocional no espectador. Em linha com a exploração da intimidade física e emocional de Andrea Arnold e fruto da investigação desenvolvida na minha tese de mestrado, pretendo uma abordagem imersiva e sensorial.
A proximidade física da câmara capta texturas, gestos e pormenores, como a pele, o suor e o cansaço e cria um vínculo emocional entre o espectador e a imagem. A perceção multissensorial permite uma empatia não só cognitiva, mas também corporal e uma compreensão profunda da dureza das condições de vida de Susana e dos seus filhos.
Esta noção de vínculo emocional é também explorada no filme através da relação entre a estafeta e a aplicação. A aplicação está projetada para criar uma ligação emocional com o utilizador, recorrendo a uma falsa vulnerabilidade. Através da gamificação, o trabalho é transformado num jogo competitivo. Com uma linguagem infantil e lúdica, a aplicação recompensa Susana com prémios imateriais e distintivos virtuais, incentivando-a a continuar sob condições de exploração.
Inevitavelmente, o filme questiona o livre-arbítrio. No início, as personagens entram no jogo, mas à medida que a narrativa avança, a linguagem da app torna-se mais agressiva, à semelhança das próprias personagens, que perdem a paciência e a energia. Este questionamento estende-se às opções técnicas do filme, com uma estética documental, que é reforçada pela iluminação natural, interação de atores profissionais e não profissionais, uma banda sonora exclusivamente diegética e o uso de câmara à mão. A câmara, altamente móvel, simboliza a resiliência das personagens, mas não a sua liberdade. Em alguns momentos, revela uma vontade própria, desviando-se da ação principal para se focar em pormenores que lhe despertam a curiosidade. A atenção dispersa entre personagens e objetos é também a fonte das metáforas visuais que Por fim, Susana toma uma decisão radical: recusa a única opção oferecida pela aplicação. Um pequeno gesto de resistência abre espaço para a reconciliação com os filhos, e com ela própria, e a possibilidade de recomeço.
Acredito que o cinema tem o poder de sensibilizar e promover a reflexão sobre a nossa sociedade. SEM SAÍDA é a minha tentativa de dar voz e visibilidade aos trabalhadores explorados por um sistema que lucra com a sua vulnerabilidade.
Sem Saída
Em pré-produção
CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO
de Silvana Torricella
Cimbalino Filmes
Durante o turno da noite como estafeta de uma plataforma digital, Susana, uma mãe solteira, esforça-se por cuidar dos dois filhos pequenos que a acompanham no carro.
À medida que a aplicação a pressiona para fazer mais entregas, as crianças ficam cada vez mais cansadas e a pressão aumenta. Um erro no GPS da aplicação encurrala-a num loop, enviando-a repetidamente para uma rua sem saída.
Perdida num labirinto de ruas idênticas e incapaz de concluir a entrega, Susana entra em colapso.



